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A ideia de criar uma revista latino-americana de semiótica foi amadurecendo paulatinamente. Este primeiro número de deSignis, publicação semestral em forma de colecção, é o resultado de um projecto colectivo impulsionado pela comissão executiva da Federação Latino-Americana de Semiótica e iniciado durante o seu IV congresso internacional celebrado em Acrunha em 1999. Sucederam-se depois uma série de encontros de trabalho em Paris e em Buenos Aires que culminariam em Fevereiro de 2001 com a primeira reunião do comité de redacção da revista na Maison de l’Amérique Latine em Paris. Gostava de assinalar que os membros fundadores da Federação (1987) são os mesmos —salvo escassíssimas excepções— que integram a redacção de deSignis, testemunho eloquente não apenas de um profundo compromisso intelectual com a disciplina como também de uma verdadeira consciência —atraver-me-ia a dizer pasional— da necessidade imperiosa da integração cultural ibero e luso-americana a partir, precisamente, das particularidades regionais.

Editar deSignis hoje é uma prova de coragem ou, em todo o caso, da vontade de afirmar como território próprio —para dizê-lo pelas palavras de Roland Barthes— “o domínio das articulações”, essa olhada semiótica que atravessa os textos culturais para os estruturar como conjuntos de “diferenças”. E não é por acaso que este primeiro número está dedicado à moda, porque mostra, analisando uma prática social por definição heteróclita, até que ponto certos conceitos interpretativos chave do instrumental semiológico se têm incorporado definitiva e irreversivelmente às ciências sociais.

É ainda valido falar numa “semiótica latino-americana”, afirmar uma sorte de especialidade local, no meio das auto-estradas da informação que tornam globais e mediatizados os processos culturais regionais, quando professores de diferentes proveniências ensinam regularmente nas universidades do nosso continente? A distinção entre o global e o local resulta, porém, pertinente precisamente na procura das condições de produção e de articulação da significação —uma clássica preocupação da semiótica— de certos “objectos” próprios e também transversais à cultura latina. A emergência das pesquisas semióticas de fonte latino-americana tem sido, historicamente falando, um campo fragmentado que se incorpora muito cedo —mais ainda do que na Europa ou nos Estados Unidos— ao funcionamento académico. Hoje em dia, e os leitores universitários sabem-no, as cadeiras de Semiótica na América Latina têm proliferado como cogumelos baixo a chuva e são as mais povoadas do mundo em número de alunos e em inserção institucional.

O ensino da Semiótica nas nossas universidades revela o interesse constante que a disciplina tem sabido despertar nos nossos meios institucionais, mas que requer o desafio da profissionalização sustida dos seus integrantes. A articulação a que se referia Barthes está também vigente no intercâmbio de professores e pesquisadores, nos encontros, em síntese, nesse activo diálogo intercontinental em que se tem transformado hoje em dia o ensino universitário e que se encontra na base do universitas latino. Mas também a prática semiótica se insere na procura crescente de semiólogos como consultores em territórios tão dissímeis como a publicidade, a moda, a política, os meios de comunicação, o espaço público, a arquitectura. A semiótica latino-americana nutre-se desta dupla vertente, a académica e a social, despregando-se na heterogeneidade das suas práticas, sua riqueza e seu interesse.

Mas há outro elemento, ligado já fortemente ao problema do ensino da disciplina, ao grande número de cadeiras e à circulação das ideias: é o tema da língua. E cá deSignis tem uma posição militante: reivindicar o espanhol e o português como línguas veiculares de ciência. Para além de critérios demoscópicos ou demográficos, de políticas linguísticas ou de estratégias de promoção, queremos pensar e escrever nas nossas línguas, não como espaços fechados —e Umberto Eco tem amplamente demonstrado a complexidade do imaginário linguístico e semiótico analisando a procura utópica da língua perfeita— mas como os veículos de tradução que todo o diálogo intelectual pressupõe. Esta revista foi criada precisamente como ferramenta, instrumento de trabalho e de expressão para as nossas cadeiras continentais. E daí o nosso interesse por apresentar um espaço rico em intercâmbios de problemas teóricos e de práticas analíticas, de circulação de debates e pesquisas, de descobrimento e de cenário para novas gerações, em síntese, de desafio para a complexa prática da escrita.

Com um olhar transdisciplinar e pluralista deSignis posiciona-se, portanto, entre a diversidade dos objectos de análise e uma procura de chaves de leitura e renovação teórica a partir da emergência de uma comunidade intercultural como é a latina; mas é sobretudo um lugar de inteligência colectiva e de distância crítica para aprender a conhecer-nos e a valorar-nos através de um continente.

Preparar uma revista é como construir uma casa: há espaços privados e públicos, corredores e zonas de contacto, cozinhas do sentido… É com merecida satisfação que a equipa de deSignis dá as boas-vindas à sua comunidade de leitores nesta nova aventura semiológica.