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Capoeira: A linguagem silenciosa dos gestos
Monica Rector
El cuerpo es el símbolo de que se vale una sociedad
para hablar de sus fantasmas.
(Bernard 189)
For me, Capoeira is a way of living that,
in addition to the physical benefits of its practice,
has given me a clearer vision
and better perspective on the game of life,
and a strategy to face the contradictions
of the world.
(Almeida. 1981: 17)
I intend to study the Brazilian capoeira from an historic
point of view, showing its African heritage and analyzing its meaning
from a visual and semantic perspective. It is a sequence of gestures that
initially look like a physical exercise, a kind of martial art, but it
is really a fight or a dance, depending on the context. Semiotics and
kinesics will be used as a framework.
1. INTRODUÇÃO
A cultura brasileira tem uma forte herança africana, especialmente
no Estado da Bahia. Entre as inúmeras manifestações
artísticas herdadas, a capoeira ocupa um lugar de destaque. Pode
ser encarada como uma luta, um jogo, um esporte ou uma dança, dependendo
da perspectiva do receptor e do momento histórico da percepção.
Apesar de ter inicialmente sido uma forma de combate (Rego.1968: 35),
sempre teve uma função lúdica, sendo para os escravos
no período colonial um instante de relaxamento do trabalho forçado.
A capoeira também contém um elemento mítico, que
é mostrar que os negros tem uma identidade, uma forma de expressão,
e um momento de liberdade temporária em seu estado de escravidão.
A capoeira é uma forma de comunicação não-verbal,
conseguida por meio do comportamento cinésico e paralinguístico.
A forma principal de expressão é o gesto, feito com o uso
de todo o corpo, apesar da música também desempenhar um
papel importante.
A capoeira tem uma terminologia própria, uma sintaxe e a possiblidade
de traduzir palavras em gestos e vice-versa. Se considerarmos a capoeira
como uma luta, o silêncio durante o ato é um veículo
para tomar-se conhecimento das intenções do oponente.
2. A HERANÇA AFRICANA
Houve um intenso tráfico de escravos da África para a Bahia
na segunda metade do século XVI até a segunda parte do século
XIX (o Brasil foi o último país a abolir a escravidão,
em 1888). O documento mais antigo legalizando a importação
de escravos foi assinado por D. João III, em1559. Os historiadores
costumam dividir o comércio escravagista em quatro períodos:
1. o ciclo da Guiné, segunda metade do século XVI; 2. o
ciclo de Angola e do Congo, no século XVII; 3. o ciclo da costa
da Mina, na primeira metade do século XVIII; 4. o ciclo da baía
de Benin, de 1770 a 1850. Aproximadamente quatro milhões de escravos
foram trazidos. O maior número chegou entre 1800 e 1851 da baía
de Benin para a Bahia. Os escravos eram bons trabalhadores, e foram usados
no plantio do tabaco, açucar e café.
Os grupos étnicos entre os escravos africanos são identificados
de acordo com sua língua. Há o predomínio dos Yorubas
(a nação Keto-Nago) no Estado da Bahia. Sua teogonia domina
as práticas religiosas. Os Yorubas vieram do leste da África,
principalmente da região entre Benin, antiga Daomé e do
baixo Niger. Constituem o terceiro maior grupo étnico da região.
A maioria da população vivia na área rural, a agricultura
é sua atividade principal, por isso, os portugueses os escollheram
para suas plantações.
As outras divisões (modelos de organização chamados
nações) são Jexá ou Ijexá
(Yoruba), Jegê (Fon), Angola (Bantu), Congo (Bantu), Angola-Congo
(Bantu) e Caboclo (modelo afro-brasileiro) (Lody 11). A capoeira é
desempenhada pelos capoeiristas, a maioria de origem angolana, tanto que
a capoeira era referida como capoeira angolana por causa da
sua procedência, no entanto, alguns especialistas dizem ter sido
inventada no Brasil. Apesar de praticada pelos negros e alguns brancos,
a capoeira era mais popular entre os mulatos de classe social mais baixa.
Estes escravos tinham sua crenças próprias e lugares de
culto, que são os terreiros de candomblé. Candomblé
é um termo derivado da dança do mesmo nome, kandombe, assim
chamada devido aos tambores usados para a execução do ritmo
durante a performance (Megenney.1978: 97). A outra etimologia possível
é kandombile, culto ou oração (Lody.1987: 8). O terreiro
é um espaço físico e, ao mesmo tempo, cultural, que
reproduz a organização política, econômica
e cultura dos participantes. Foi adaptado à realidade brasileira
e caracteriza-se pela liberdade de existência. Forma uma comunidade
que representa um espaço simbólico. Este espaço constitúi
o próprio mundo, e, para os participantes, há dois mundos:
um visível e outro invisível. Este mundo tem um deus, Olorum,
criador de todos os espaços.
No culto, a dança é um dos elementos principais. A dança
é um signo, usado para entrar em harmonia com o cosmos, com os
orixás, a personificação e a divinização
das forças da natureza, com os demais seres humanos. Esta religião
considera que o indivíduo nunca está só, pois o mundo
é um cosmos totalmente integrado. Cada pessoa é um Ori,
relacionado a uma força. De um lado, está-se ligado aos
orixás, do outro aos ancestrais. Isto individualiza o ser humano
e torna-o senhor de seu destino. A cultura negra brasileira aceita a pluralidade
cultural, mas ao mesmo tempo é uma cultura alternativa, apresentando
a possibilidade de fazer-se parte de uma cosmogonia e não de uma
teologia.
Candomblé e capoeira não são a mesma coisa. Alguns
capoeiristas são Oloyê de um terreiro de candomblé.
Pode haver uma mãe (Iyalorixá) ou um pai
de santo(Babalorixá), que são os líderes do
terreiro. For exemplo, Arnol (Arnol Conceição) é
o filho do babalorixá Enick (Enock Cardoso dos Santos). Desde a
infância, o capoeirista se protege contra o mal de inúmeras
formas, especialmente fazendo ebó, uma espécie de magia
negra, contra seu rival (Rego.1968: 38).
A população brasileira tem aproximadamente 74% de indivíduos
negros, mestiços ou mulatos. No entanto, a cultura negra que predomina
no Brasil não é apenas a africana. É uma cultura
modificada pela influência européia (portuguesa e francesa),
de acordo com valores católicos. Os escravos eram obrigados a se
tornarem cristãos, a batizar seus filhos e a reverenciar os santos
católicos. O resultado é um sincretismo, a correspondência
entre os santos católicos e as entidades africanas, os orixás.
Por exemplo, na Bahia, Oxum é Nossa Senhora das Candeias, e, em
Recife, é Nossa Senhora do Carmo; Oxossi, na Bahia é São
Jorge, no Rio de Janeiro é Ogum, que, por sua vez, é Santo
Antônio na Bahia. Além de fazer um santo coincidir com um
orixá, pelas características intrínsecas que a entidade
apresenta, há variações conforme a região
quanto ao santo católico escolhido. O fato importante é
que estes índivíduos aprenderam a integrar santos católicos
e orixás africanos, numa religião sincrética.
A religião dos brancos era considerada superior em cultura, por
isso o sincretismo foi visto pelos escravos como o forma de se elevar
socialmente. Justapondo orixás e santos, os negros sentiam que
suas entidades estavam no mesmo nível. A igreja não permitia
a mistura de santos com entidades outras, assim os negros escondiam suas
entidades pro detrás dos santos católicos (embaixo do altar,
por exemplo). Este foi o modo de traduzir a realidade africana para o
novo mundo como forma de sobrevivência.
3. CAPOEIRA
A origem da palavra capoeira não é precisa. Foi registrada
por primeira vez por Rafael Bluteau, em 1712 (Bluteau.1712:129). De acordo
com o romancista do século XIX, José de Alencar, o termo
vem do tupi caa-apuam-era, que significa uma ilha de mato. Visconde de
Beaurepaire Rohan diz que o termo vem do tupi, mas de co-puera, que significa
roça velha. Quando a roça é abadonada, sua vegetação
volta a crescer e a tomar conta da terra. Este mato é a coo-puera,
e é chamada de capuerana zona rural (Rego.1968: 19). A proposta
de Macedo Soares (1880:228) é a mais aceita: caa significa mato,
e puera é o pretérito: o que foi e não mais existe.
Mas há ainda mais uma possibilidade: um pássaro chamado
capoeira (Odonthophorus capueira, Spix), que, de acordo com o filólogo
Antenor Nascentes, poderia explicar o jogo da capoeira: o macho ciumento
luta com o rival que invade seu domínio, fato este que explica
a violência do jogo em certos aspectos.
Capoeira é um jogo, comumente referido como o jogo da capoeira.
Este jogo tem lugar dentro de um círculo imaginário que
é a roda. A capoeira é sempre jogada em espaços abertos,
apesar de que atualmente ocorre em academias e salões oficiais.
As Academias de Capoeira são recentes, tendo sido formadas em 1930.
Mestre Bimba (Manuel dos Reis Machado) fundou a primeira em 1932, no Engenho
Velho de Botas, registrando-a com o nome de Centro de Cultura Física
e Capoeira Regional. Isto porque naquela época os capoeiristas
eram considerados criminosos (Rego.1968: 282). Mas a capoeira já
vinha sendo proibida desde os tempos da escravidão por diversas
razões:
1. dava aos africanos um sentido de nacionalidade;
2. dava ao capoeirista um sentido de individualidade e de auto-confiança;
3. servia para unir e manter grupos unidos;
4. treinava lutadores ágeis; e
5. machucava os escravos durante o jogo, o que era inconveniente para
o empregador do ponto de vista econômico (Capoeira 14).
Às vezes, o capoeirista era mesmo um elemento perigoso, e o govêrno
passou uma lei, em 1821, punindo os que abusavam de seus direitos. De
fato, no Código Criminal do Império do Brasil, de 1873,
há uma cláusula que coloca os capoeiristas no mesmo nível
dos vagabundos e indigentes. Os tempos mudaram e, em 1966, o então
governador da Bahia, Juracy Magalhães, convidou por primeira vez
convidou os capoeiristas para uma apresentação do Palácio
do Govêrno (Rego.1968: 316). Atualmente, a capoeira é inclusive
uma atração turística, que tem sido criticada por
especialistas como uma modificação e imposição
comercial na estrutura tradicional.
Salvador (Bahia) foi o centro mais importante, mas atualmente Rio de Janeiro
e São Paulo são igualmente ativos, especialmente depois
da morte do Mestre Bimba (1974) e com a aposentadoria de Pastinha, os
dois capoeiristas mais conhecidos do século XX.
Segundo Melo de Morais, no jogo da capoeira os lutadores se colocam em
posição de combate, próximos um ao outro, com os
olhos brilhando. Os lábios murmuram frases imperceptíveis
que podem ser de ameaça ou desdém. Há uma ondulação
quase sutil como uma serpente, que cresce ao longo da luta. Os corpos
e braços gingam, mas as cabeças e os pescoços estão
imóveis. Analisam-se mutuamente. De repente, um enrosca a parte
superior do corpo do outro com o braço direito. Rápido como
um relâmpago se juntam e, aquele que foi enroscado, é virado
de ponta cabeça, caindo por detrás das costas do outro.
No chão jaz o oponente prostrado e inerte, frio como um cadáver
(Almeida.1981: 34).
A capoeira é uma experiência essencialmente visual. É
um espetáculo, um ritual e uma representação icônica
de uma luta ou jogo. Segundo MacCannell:
the iconic sign permits humankind to subordinate itself to its own semiotic
production by existing in a position of superiority to both addresser
and addressee. [
] Addresser and addressee are coparticipating in
the semiotic production [
] and the icon unites the addresser and
addressee in a cult, and the cult-icon articulation is antecedent to any
interpretation that might subsequently be performed (MacCannell.1986:
426-427).
Este é o caso da capoeira, um jogo atlético masculino feito
com movimentos rápidos das mãos, pés e cabeça,
combinado com a desarticulação das cadeiras, e o corpo interagindo
com o corpo do oponente em uma posição de ataque ou defesa.
4. METODOLOGIA
A capoeira pode ser estudada do ponto de vista físico, que é
a parte que é visível e tangível, ou a partir de
seu significado subjacente.
Analisarei os elementos visíveis que, como Greimas diria: instead
of being projected before us as a homogeneous screen of forms, it appears
rather to be made up of several superimposed, or even sometimes juxtaposed,
layers of signification (Greimas.1987: 20).
Segundo Greimas, o corpo humano se move dentro de um contexto espacial
que leva em consideração três critérios: deslocamento,
orientação e suporte (Greimas.1987: 23). Além disso,
volume e peso são outros fatores a serem considerados. O peso envolve
três sistemas diferentes: 1. o sistema de coordenadas espaciais,
2. o perspectivismo espacial, e 3. a relativização do espaço.
O peso é analisado a partir de dois eixos espaciais: o vertical
e o horizontal e, há ainda a categoria de oposição
entre a mobilidade e a imobilidade (Greimas. 1987: 23-24).
A mobilidade foi ser considerada em conjunto com os elementos paracinésicos,
que qualificam o movimento. Modificam a ação e descrevem
o corpo em movimento ou a interação de ambos corpos. As
qualidades paracinésicas incluem intensidade, área ou alcance
(range) e velocidade. Estes elementos são básicos
para a capoeira, mas não trataremos deles neste artigo.
Na capoeira, é possível identificar um esquema, entendido
como a continuous structure of an organizing activity. Além
disso, é a recurrent pattern, shape, and regularity in, or
of, these ongoing ordering activities (Johnson.1987: 29).
Há uma distinção entre a gestualidade prática
e a mítica. A capoeira como luta é prática, porque
tem a ver com a modalidade do fazer. Como uma dança, a capoeira
é mítica por que se relaciona ao querer. O jogo em si mesmo
pode ser dividido em sagrado, lúdico e estético.
5. O CORPO
Na capoeira, o corpo torna-se um valor cultural. Os homens brancos tolheram
a fala, mas foram incapazes de reprimir o corpo. Os movimentos corporais,
considerados como um espetáculo, eram apreciados social e estéticamente
aceitos por seus senhores. Percebendo esta manipulação,
o capoeirista transforma seu corpo num signo subjetivo de identidade e
singularidade. Estas associações revelam que nuestro
cuerpo es siempre lenguaje sobre el cuerpo (Bernard.1980: 117).
Neste sentido, o corpo é uma construção cultural;
é um processo constante, dinâmico ao invés de um produto
aceito como tal. Além disso, verdad es que la expressión
corporal ME expresa a MÍ, pero sólo en la medida que esa
expresión nace del eco provocado y suscitado en el cuerpo de otra
persona (Bernard.1980: 117).
Junto com a cintura, as pernas constituem a parte principal usada. Mestre
Bimba, por exemplo, desenvolveu um estilo chamado com pé. É
um método de auto-desenvolvimento, onde corpo e mente tornam-se
um através do que ele chama de trilogia da capoeira:1. treinamento
disciplinado, 2. respeito pelas raízes, e 3. filosofia aplicada
(Almeida.1981: 51).
O corpo tem um duplo simbolismo: é centrípeto ou psicológico,
porque se volta para o próprio corpo humano, e é centrífugo
ou sociológico, quando se relaciona com a situação
social, que torna o gesto significativo. Bernard diz que se pode ler o
simbolismo do corpo de duas formas: hacia la universalidad de la
libido o hacia la particularidad de la cultura (Bernard.1980: 188).
O escravo é um homem doentio, porque é reprimido e tratado
fisicamente, em raras ocasiões, sómente para suprir as necessidades
diárias básicas. Quando começa a jogar a capoeira,
renasce e seu corpo ressurge do nada. Há uma liberação
das energias bloqueadas. O corpo codificado tem que ser decodificado para
poder ser recodificado. O corpo, neste sentido, é um transformador
(transducer) de códigos. Sofre a metamorfose por meio
da qual o significante adquire um novo significado.
De acordo com Gil (1980), o corpo é o centro e o transformador.
É o significante que denota dois diferentes tipos de força.
Uma força é institucional, social e individual, e sua energia
pode ser transformada numa fonte positiva, como no caso da magia branca.
A outra força é a energia incontrolável, que age
fora das articulações normais dos códigos, como no
caso da magia negra (Gil.1989: 54-55). O capoeirista sempre está
no lado da energia positiva, mesmo quando luta para matar, porque seria
uma luta em legítima defesa.
Para Tavares (1984), o corpo é um signo: o significante (o corpo),
o significado (a memória do corpo, que vem a ser a história
coletivo do homem), a significação (a resistência/participação)
e o referente (a situação específica) (Tavares. 1990:33).
Além disso, o corpo é o texto-síntese que emite uma
forma de linguagem, de mensagens não-verbais, registradas por meios
de experiências diárias, que comunicam o mundo interior com
o exterior .
A função deste corpo é ação e contra-ação.
O corpo é o instrumento do processo verbal e do não-verbal.
A astúcia é um meio de preparar-se para situações
difícieis, como fugas planejadas, nas quais um movimento rápido
e definitivo tem que ser usado. A música também é
luta, introduzida como máscara de disfarce.
O capoeirista, que foi um escravo outrora, tinha uma dupla função
na economia: produzia o produto e era o produto. Primeiro, trabalhava,
e, com frequência, era vendido para pagar as dívidas do patrão,
ou melhor, de seu dono. O ser humano é transformado num produto
o produto é transformado em força de trabalho
a força de trabalho em produto (Tavares. 1990: 55). Por esta razão,
os escravos eram considerados valiosos. Eram máquinas carnais
(Tavares.1990: 87): humanos e materiais ao mesmo tempo.
Para objetificar o ser humano, a falta de comunicação era
um dos meios usados: supressão da linguagem, do acesso ao mundo
cotidiano (família e sentidos), interdição dos movimentos
do próprio corpo.
O signo verbal frequentemente era proibido (no trabalho) e o não-verbal
permitido. O não-verbal era, então, transformado num ritual
de expressão não-verbal permitida. Neste ritual do jogo
da capoeira, interagem os seguintes sistemas de signos não-verbais:
cronêmica (tempo), proxêmica (espaço), cinésica
(movimento), tacésica (tato), e os signos auditivos (música
e ritmo). O signo verbal foi deixado de lado, mas está presente
na letra das músicas. Senão, todos os demais sentidos estão
presentes como significantes.
A capoeira é intrinsicamente uma resitência étnica
e cultural. O corpo verbalmente silenciado dá origem a um corpo
não-verbal movente. O elemento verbal é racional porque
ouvimos nossa voz, mas o não-verbal é emocional porque não
vemos nosso próprio corpo: O corpo integrado no Cosmo [
]
O corpo é síntese e texto desse processo eu-vida-mundo-consciência
(Tavares.1990: 83).
Os quadris são o elemento catalizador, captam e irradiam a energia
como uma manifestação sexual sugestiva. O centro energético
está centralizado na cintura. Os movimentos apresentam-se de forma
côncava e convexa, um complementando o outro. O côncavo é
simbólico da posição masculina, enquanto que o convexo
é o feminino. Todo o espaço gestual é simbólico.
O macho abraça a fêmea numa posição concave,
protegendo-a, depois de se auto-proteger contra o forma formando um todo.
(1)
6. A ESTRUTURA
Tavares (1990:73) divide a capoeira em quatro elementos básicos:
1. a roda, 2. o jogo, 3. o corpo, e 4. o berimbau. Prefiro estruturá-la
como um espaço (a roda) que contém o corpo como elemento
central, do qual emanam os demais elementos. Capoeira é um espetáculo
em 3 níveis: o referencial (denotativo), o conotativo, e o mítico,
que analisaremos mais adiante. O corpo entra em movimento. A energia do
corpo é ativada e estimulada por meio da música, tocado
com o instrumento de percussão, o berimbau.
6.1. A roda
Espaço e tempo estão ligados ao movimento, ritmo e à
energia físca e cósmica, o axé. Como Tavares diz:
A Roda é o lugar-texto que contém subtextos que são
os jogos compostos por frases individuais(Tavares.1990:74). O espaço
é o próprio texto, e deste texto emergem vários discursos
textuais, cada um constituindo uma sequência de gestuemas
o elemento mínimo de significação do gesto.
A roda, transformada em texto pelo espetáculo, constitui-se pelo
ritmo, que pode ser físico (o próprio corpo), musical (o
ritmo dos instrumentos e o som produzido), e transcendental. Aspira à
unidade total, alcançada pela concentração, e, consequentemente,
pela elevação do espírito.
|
ritmo (físico)
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<->
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ritmo (musical)
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<->
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ritmo (transcendental)
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/
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/
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/
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movimento
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<->
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melodia
|
<->
|
energia
|
Ainda, de acordo com Tavares, a roda é um ethos místico(Tavares.1990:75),
congela a estrutura e recria símbolos a partir de movimentos condensados.
Para fins didáticos, cada movimento pode ser analisado separadamente
em unidades discretas e, posteriormente, as várias partes são
conectadas por meio da energia produzida pelos diferentes ritmos na dimensão
pessoal, atingindo a transcendência que gera os significados subjacentes.
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Estático (proceso)
|
->
|
dinâmico (energia)
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->
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transcendência
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/
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dimensão pessoal
|
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->
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dimensão extra-pessoal
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/
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terra
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cosmo
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6.2. O jogo em três níveis
Três é o número cabalístico presente na capoeira,
que pode ser visto em termos de superego, ego e id, em termos do Pai,
do Filho e do Espírito Santo. Há uma passagem do plano físico
para o espiritual. Os três níveis são o denotativo,
o conotativo e o mítico:no nível denotativo, a capoeira
é um esporte, uma luta, uma competição, uma dança
um jogo de lutadores; no nível conotativo, é uma
ardil, um conhecimento de seres humanos, de vida, de motivações
(Capoeira.1981: 37-39). Quando este processo ocorre, a capoeira torna-se
parte do comportamento diário. Uns dos elementos principais neste
processo é o ardil, a manha, que introduz movimentos imprevisíveis,
como escapar em lugar de atacar; cair, antes do ataque terminar; fingir
que vai atacar quando procede de forma diversa. Ganha o jogo quem souber
manejar o processo e não a estrutura em si; no nível mítico,
é perfeição. Só após uns dez anos,
é que o capoeirista se torna Mestre; a magia foi alcançada.
Pode-se criar a seguinte matriz:
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técnica
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-
|
ardil
|
-
|
magia
|
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/
|
|
/
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/
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luta
|
-
|
reflexão
|
-
|
espiritual
|
|
/
|
|
/
|
|
/
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biológico
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-
|
mental
|
-
|
transcendental
|
O jogo, conforme Tavares, tem dois eixos: ataque e defesa/ escape e ataque.
Os eixos formam uma sequência circular contínua: - escape
-> ataque -> defesa ->ataque -.
A ação do jogo usa os seguintes movimentos:
ataque: usando a cabeça/mão/ cotovelos/ joelhos/ pés/
técnicas de abaixamento e golpes;
defesa: usando escape/bloqueio/ rolamento/ agarramento (Almeida.1981:
132).
O elo dos eixos é a cintura, sem ponto fixo, a partir do qual a
parte superior ou inferior do corpo se move. A cintura é o ponto
móvil, que interrelaciona as outras partes do corpo (Tavares.1990:
2).
6.3. O movimento
O movimento da capoeira consiste em três elmentos básicos:
ginga, negativa, aú. - ginga: movimento nos pés: A
ginga estabelece a pauta. O corpo estabelece o texto ((Tavares.1990: 79).
A ginga é um movimento de quietude (os pés estão
fixos e só o quadril se movimenta), mas esta quietude contém
a energia que move o corpo inteiro, contribuindo para sua transcendência.
É ao mesmo tempo um ponto de concentração e de expansão.
A ginga envolve três ações básicas: 1)
The PASSADA which is the movement of the feet, 2) BALANÇO which
is the swinging of the full body without moving the feet, and 3) JOGO
DE CORPO which involves the moviment of the upper body(Almeida.1990:
133):
- negativa e rolê: o primeiro é um movimento paralelo ao
chão, e o rolê desfaz a negativa;
- aú (pirueta): é o movimento de colocar a cabeça
em direção ao chão, plantar bananeira,
com as pernas semi-abertas em ângulo, movendo de um lado para o
outro.
Este movimentos correspondem ao:
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Equilíbrio
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-
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reequilíbrio
|
-
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desequilíbrio
|
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/
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|
/
|
|
/
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gravidade
|
-
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neutralidade
(cair e levantar)
|
-
|
falta de gravidade
|
7. MÚSICA E LETRA
No espaço destinado ao jogo, há dois tipos de atores: os
capoeiristas e os músicos, que tocam oos instrumentos e cantam
as músicas. A performance segue um ritual:1. começa com
a ladainha, uma espécie de hino; 2. segue a canção
de abertura; 3. para cada um dos capoeiristas há com uma canção
diferente; 4. esta canção é seguida de outras mais
rápidas, os corridos; 5. outra forma de canção são
as cantigas de sotaque, nas quais um participante desafia o outro, dizendo
que não teme o quefez nem o que é capaz de fazer; 6. o sotaque
é apenas um aviso, que leva à praga, desejando ao rival
a pior sorte possível.
Como exemplo, analisarei a seguinte letra (Rego.1968: 56):
Te dô sarna te dô tinha
Te dô doença do á
Te dô piolho de galinha
Pra te acabá de matá.
O Cancioneiro medieval galego-português dos séculos XII e
XIII é constituído pela poesia lírica, de cantigas.
Além das cantigas de amor e cantigas de amigo, há as cantigas
de escárnio e as cantigas de mal-dizer. Na capoeira, as chamadas
cantigas de sotaque sofreram a influência das cantigas de escárnio
e mal-dizer. O participante tem seus olhos abertos encarando o parceiro.
A cantiga cantada, como já foi dito, roga uma praga: que o mal
maior aconteça ao rival.
Na cantiga acima, o lutador deseja ao seu rival as piores doenças:
sarna, tinha, doença do ar,
e praga de galinha. A sarna é uma infecção
cutânea contagiosa, parasitária, que dá tanto em seres
humanos como em animais, nestes é provocada por ácaros;
a tinha (do latim tinea) é uma infecção cutânea
superficial fúngica, uma doença de pele, típica dos
pássaros; e a doença do ar é a congestão cerebral;
o piolho de galinha é um parasita das galinhas, trasmissível
aos seres humanos.
No Cancioneiro, a cantiga de Pero Vivaez (Lapa.1965: 588) é semelhante
à cantiga da capoeira. Deseja-se que o pobre homem contraia todas
as doenças possíveis, pelo fato de ser homossexual. Do ponto
de vista formal, a cantiga acima apresenta como característica
fonética a apócope da vibrante final /r/: ar - > á,
acabar -> acabá, matar -> matá, comum no português
do Brasil e nos dialetos crioulos de Cabo Verde, Tomé e Príncipe;
e a redução do ditongo: dou ->dô, do latim au->ô.
Quanto à estrutura da cantiga trata-se de um poema de quatro versos,
um quarteto. Os versos são heptassílabos ou redondilha maior,
que é a forma de verso comum tanto na Idade Média como na
poesia moderna popular. A rima é alternada: abab.
O jogo da capoeira é acompanhado pelo berimbau. O berimbau é
um instrumento de percussão, de origem africana, que consiste em
um arco de madeira retesado por um fio de arame com uma cabaça
presa ao dorso da extremidade inferior. A corda é percutida com
uma vairnha, que o tocador segura com a mão direita, enquanto aproxima
ou afasta do corpo a abetura da cabaça, para modificar a intensidade
do som, e acentua o ritmo com o chocalhar de um caxixi. A mão esquerda
aproxima ou afasta da corda uma moeda, a fim de obter sons variados. (2)
Os capoeiristas fazem um reverência ao instrumento antes de iniciar
o jogo. Mãos no chão, levantam as pernas, mostrando o domínio
sobre o corpo. Então, o corpo retorna à posição
inicial. Os rivais se encaram, e o diálogo silencioso dos movimento
tem início.
O ritmo do jogo é determindo pelo berimbau. Outros instrumentos
ainda complementam o ritmo: adufe, pandeiro, atabaque, reco-reco ou ganzá,
caxixi e agogô.
CONCLUSÃO
Tavares sintetiza num parágrafo a mensagem principal transmitida
pelo corpo no movimento da capoeira. Segundo o autor, a corpo torna-se
um arquivo, a memória do tempo e do espaço, a sabedoria
de uma comunidade que é passado, mas ao mesmo tempo presente, porque
a capoeira é uma arma que mantém viva a memória e
conserva a continuidade de um grupo étnico e de sua cultura (Tavares.
1990:62).
Portanto, a capoeira é um signo de sobrevivência de uma porção
da realidade africana, que siignifica liberdade, ainda que temporária.
No presente é apenas um espetáculo, no passado foi um disfarce,
uma maneira do escravo negro construir sua força. Signo múltiplo,
a capoeira é aparência luta, arte marcial, esporte
(exercício físico), espetáculo -, é memória
subjacente de um passado não glorioso, é símbolo
de força, de sobrevivência, mas sobretudo de identidade,
fator de coesão da comunidade. E é mais ainda, segundo Raul
Lody (1987) é uma religião e uma resistência
cultural.Mas, ao lado, deste aspecto sério e responsável,
a capoeira é um jogo, e, como tal, não podemos deixar de
mencionar o lado lúdico, que traz a leveza, o riso, invertendo
a ordem da proibição.
Portanto, os gestos formam uma sequência significativa que adquire
um significado diverso segundo a situação. A capoeira é
um discurso em que o interpretante é um rema, uma proposição
aberta, cujo significado finalou normal, como
diria Charles S. Peirce, depende do emissor e receptor neste jogo de domínio
e de submissão.
(1) O capoeirista usa uma espécie de uniforme branco com calças,
cobrindo o calcanhar, torso nu ou uma camisa longa cobrindo as calças
e, às vezes, um lenço de seda em torno do pescoço.
Mestre Bimba diz que a seda evita o corte de navalha no pescoço,
porque esta não passa pela seda. O lenço tambem protege
contra suor e sujeira. Quanto à navalha, esta era usada outrora
entre os dedos no pé, numa luta de fato.
(2) A definição de berimbau foi tirada de Aurélio
Buarque de Holanda Ferreira, Novo dicionário da lingua portuguesa,
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Monica Rector es semióloga y lingüista, una de las
más prestigiosas investigadoras latinoamericanas en esta disciplina.
Fundadora entre otros, de la Asociación Brasilera de Semiótica
en 1979, se ha desempeñado como profesora en diversas universidades
brasileras y actualmente es profesora en la Universidad de North Carolina
en Chapel Hill. Entre sus numerosas publicaciones merecen destacar: (1999)
Mulher, sujeito e objeto da literatura portuguesa. Porto: Universidade
Fernando Pessoa.; (1997) Comunicação na era pós-moderna
com Eduardo Neiva (eds) Petrópolis: Vozes.; (1994) A fala dos jovens.
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Para ler Greimas. Rio de Janeiro: Francisco Alves.
Email: rector@email.unc.edu
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