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O livro Présences de lAutre, de Eric Landowski, é exemplar dos novos rumos que a semiótica discursiva vem tomando desde que passou a se preocupar com uma dimensão mais sensível do sentido e, no limite, com a própria discussão do estatuto de um sentido que se dá antes mesmo de sua representação. Esse livro de Landowski de 1997 está organizado em torno de duas grandes problemáticas que a descrição dessa presença, já anunciada poeticamente no título, recobre. Por um lado, Landowski ocupa-se das presenças do Outro e de como estas determinam (através da construção de figuras, individuais ou coletivas, como o esnobe, o dandy, o urso, o camaleão) as formas de identidade do próprio sujeito. O que está em pauta é, em outro momento, as formas de alteridade construídas entre sujeitos e seus modos de articulação (exclusão, assimilação, admissão, segregação). Através da semiotização de variados discursos e práticas sociais, que vão das formas de popularidade dos homens públicos à instauração de modos de ser através da moda, Landowski preocupa-se, enfim, com as relações intersubjetivas e intra-subjetivas, focando sua análise sobre a práxis enunciativa capaz de ressemantizá-las. Essa preocupação culmina, por outro lado, com a problematização daqueles momentos fugazes nos quais o contato mesmo do sujeito com o objeto se impõe e faz sentido por si só ou, em outros termos, com a descrição de um regime de sentido da ordem do contato, que se dá tão somente na co-presença dos actantes sujeito e objeto; uma interação criadora de sentido em si mesma. Trata-se, enfim, do reconhecimento de um sentido cuja particularidade é justamente a de ser sentido nesse contato imediato entre sujeito e objeto: portanto, um sentido sentido; um sentido que se dá, em um termo, como presença. Esta outra noção de presença é, entre tantas, a contribuição que gostaria de destacar nesse livro pela influência que poderá vir a ter nos rumos da própria semiótica. Tal como proposta por Landowski, essa presença designa o modo como naquilo que um sujeito, somática e sensorialmente, sente (através da visão, da audição, do tato, etc.) já há um sentido que só se constitui como tal no momento mesmo em que se dá esta apreensão sensível do objeto. Rompe-se aqui com a forma dicotômica com que costumamos nos relacionar com o mundo uma por meio dos sentidos, mas sem sentido, e a outra com sentido, mas além dos sentidos , reconhecendo-se a emergência desse sentido que emerge dos vínculos diretos que cada um tece com o mundo que o rodeia (mundo que se deixa apreender como uma configuração sensível imediatamente carregada de sentido); um sentido entretecido naquilo que os nossos sentidos por si sós nos permitem apreender. É do modo então como se constrói essa presença que Landowski vai se ocupar semiotizando, nos sete ensaios que compõem o livro, experiências cotidianas que vão do recebimento de uma carta às impressões do viajante que sobrevoa num avião seu próximo destino; dos encontros rotineiros na praça pública, café ou teatro às nossas relações com cenas de rua, com fotos publicitárias, com a midiatização do político. Ao fazê-lo, o que Landowski tenta nos mostrar é que as nossas próprias vivências podem ser tratadas como uma outra dimensão do sentido e é dela que cabe agora à própria semiótica se ocupar como um novo desafio, ainda que, provisoriamente, apenas sobre a forma de um outro olhar. Um olhar que nos permite, no entanto, antes mesmo de uma formulação metodológica mais acabada, tentar analisar, numa perspectiva complementar à semiótica narrativa, determinados textos que esta nunca enfrentou até mesmo pela dificuldade de reconhecê-los como tal em função do seu caráter vivo e em movimento, por só existirem na forma de um se fazendo, por se darem, enfim, em ato. O que a proposta de Eric Landowski traz de mais original é exatamente essa possibilidade de entendermos, a partir da descrição dessa presença, o estatuto de textos que se definem como tal na emergência de um ato; textos que consistem justo nesse próprio contato, imediato e irrepetível, do sujeito com um objeto num tipo de situação que não apenas atualiza uma relação por meio da qual se produz uma significação qualquer (a conversação interpessoal, por exemplo), mas que instaura uma relação que tem, em si mesma, um sentido sentido (a fruição de uma música instrumental, por exemplo). Nessa condição, este tipo de texto precisa ser pensado como parte de uma ordem de fenômenos de cuja existência não se pode falar fora do próprio ato que os faz ser. A noção dessa presença semiótica, cuja descrição fundamenta o conjunto dos ensaios reunidos pelo Présences de lAutre, está, genericamente, associada ao sentido produzido em ato, o que já era desde A sociedade refletida. Ensaios de sociossemiótica I[i] uma perspectiva apontada por Landowski ao assumir a enunciação como o "ato pelo qual o sentido faz ser o sujeito semiótico". Com isso, o autor antecipava o que veio a ser a proposta definitiva do livro seguinte: não mais um tratamento lingüístico do texto, mas um tratamento de inspiração claramente fenomenológica, cujo objetivo era dar conta dos modos de interação dos sujeitos, tanto quanto dos modos de interação entre o sujeito e mundo. Nos capítulos "Explorações estratégicas" e Semiótica do cotidiano", ainda em A sociedade refletida, Landowski já discutia um fazer-fazer do manipulador que implicava em um complexo jogo de posições dos sujeitos envolvidos nas situações analisadas. O que estava sendo construído era, desde aí, as bases de uma tipologia dos modos como o sujeito entra em contacto aqui e agora com o objeto, a descrição do modo como se constrói o sentido em enunciados que evitam assumir a separação entre enunciador e enunciatário, visto que é justamente desse contato direto entre eles que emerge o sentido. Este tipo de interação vem a ser melhor caracterizada por Landowski, no Présences d elAutre, em um corpus variado de análise no qual a instância que produz o discurso não é mais caracterizada por um fazer transitivo entre enunciador e enunciatário, mas por um fazer co-presencial que se dá singularmente e a cada ato de produção. É o que ocorre, por exemplo, com o tipo de sentido que emerge entre um casal que dança: o sentido sentido que Landowski tenta agora descrever é dado neste dançar pelo ajustamento sensível do dois no ato mesmo em que se encontram e dançam; o sentido vivido que se dá neste tipo de situação já não se explica, certamente, pelo respeito às regras, pela mecânica dos movimentos ou pela própria ritualização da dança. O desafio que Landowski se coloca nesse livro, e a partir dele, passa a ser então a descrição, através da análise das mais variadas práticas em situação, dos modos como esse em ato é construído submetido ao imperativo do aqui e agora da enunciação. Entendida como um regime de sentido próprio a tudo que se dá em ato, a presença está relacionada afinal, nas palavras do próprio autor, à uma problemática geral das relações do sujeito consigo mesmo através das modulações de sentido que ele atribui ao seu espaço-tempo. Essa preocupação com uma dimensão mais sensível do sentido, que culmina com a descrição dessa presença, pode ser considerada como sendo ainda um dos legados do último livro que Greimas publicou sozinho, o De lImperfection[ii] ou, se pretendermos ser mais fiéis à história, como o fruto da pesquisa coletiva que o mestre lituano desenvolvia e que antes mesmo desse seu livro já ecoava nos escritos dos seus colaboradores, a exemplo do próprio Landowski e de Jacques Geninasca[iii]. No De lImperfection, após anos de dedicação à lexicologia e à narratologia, Greimas se propõe a considerar justamente estas experiências de fusão sensorial entre sujeito e objeto (estesia). Até então, o estudo das relações entre sujeito e objeto detinha-se na análise das transformações narrativas através das quais se estabelecia uma conjunção ou disjunção entre eles. A relação de junção entre estas duas instâncias determinava assim três grandes modos de existência semiótica: a atualização, que corresponde à transformação por meio da qual se dá a disjunção entre sujeito e objeto; a realização que, a partir da disjunção anterior, estabelece a conjunção entre sujeito e objeto, e a virtualização, que designa o sujeito e o objeto anteriores à própria junção. Por trás dessas três grandes operações está a oposição categorial presença/ausência, a partir da qual se tenta distinguir, não apenas no nível actancial, mas da própria linguagem, uma existência virtual (in absentia) ou atual (in praesentia). No clássico Dicionário de semiótica[iv], o termo presença designa assim tão somente o que é da ordem do manifesto. Relacionada ainda à preocupação com os modos pelos quais o objeto aparece para o sujeito, uma nova descrição da presença só vai aparecer na semiótica francesa, no final dos anos 80, nos trabalhos de Eric Landowski, começando pela publicação do artigo La lettre comme acte de présence (1988)[v]. Transformado agora em ensaio, com postulações bem mais maduras, este texto é um dos melhores momentos do Présences de lAutre. Nele, a conceituação da presença, que, fiel ao estilo quase literário de Landowski, perpassa de modo fluído todos os capítulos do livro, ganha um tratamento mais categórico. Com uma formulação bem diversa da proposta por Landowski, mas também associada ao posto em ato, Jacques Fontanille e Claude Zilberberg incorporam, dez anos depois da primeira versão do La lettre comme acte de présence, a preocupação com a presença à chamada semiótica tensiva, passando a associar essa noção à formulação de categorias modais capazes de descrever o que é da ordem do perceptivo e sensível[vi]. Mas é ainda nos trabalhos de Landowski, publicados ainda antes e depois do Présences de lAutre, que a semiótica do discurso como ato vem sendo desenvolvida como uma autêntica poética da presença, capaz de iluminar, de modo operativo, a compreensão dos contextos intersubjetivos e interativos que se manifestam como e através dos discursos e das práticas em situação. Por um caminho bem próprio, no qual o próprio fazer semiótico se confunde com uma prática de vida (seu olhar para o mundo), Landowski colabora, ao propor essa noção de presença, com a abertura de mais um caminho para se compreender, sem qualquer desvio a outras disciplinas (psicologia, sociologia, etc.), as diferentes formas de construção/manifestação da subjetividade da própria linguagem. Todo esse seu percurso teórico pode ser acompanhado não apenas através do Présences de lAutre, mas também em vários artigos publicados após este livro, entre os quais destaco: "Le regard impliqué", "Modes de présences du visible", Il tempo intersoggettivo: in defesa del ritardo, De limperfection, el livro del que se habla e Sobre el contagio[vii]. Voltado para a problemática da presença, Landowski já possui um outro livro no prelo intitulado Passions sans noms. Enquanto esperamos este novo trabalho, há certamente ainda muito o que discutir a partir dos ensaios inspiradores do Présences de lAutre que, no momento, está sendo reeditado em português (Perspectiva, São Paulo) e em italiano (Meltemi, Roma). Yvana Fechine [i] La société réfléchie.
Essais de sociosémiotique, Paris, Seuil, 1989 (trad. port. A Sociedade
refletida, São Paulo-Campinas, Educ-Pontes, 1992; trad. esp. La
Sociedad figurada, Mexico, Fondo de Cultura Económica, 1993; trad.
ital. La Società riflessa, Roma, Meltemi, 1999). |
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